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Identidade

  • Foto do escritor: Duna Francesa
    Duna Francesa
  • 1 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Tenho pensado muito sobre quão confuso é o discurso sobre descobrir sua própria identidade.


Você não é sua profissão, seu nome, seu curso, sua banda favorita ou as roupas que veste. Ser você é algo socialmente complexo. Internamente conflituoso. Mas por que essa discussão?


Bem, nos últimos meses eu tenho me prendido muito a esse assunto. Com quase um ano de terapia, percebi que eu sabia muito pouco sobre a minha pessoa. O que é estranho, já que eu sou eu e vivo em mim. Mas isso se deu por eu sempre pegar um pouco das pessoas ao meu redor para moldar minha personalidade, logo, eu era como uma colcha de retalhos. Na minha cabeça, fazia sentido, já que somos próximos de pessoas com as quais nos identificamos em algum grau. Se eu fosse um pouco de todo mundo, não teria problemas com ninguém. Quase que como um camaleão.


Ainda não sei exatamente o porquê de esse ato não ser capaz de configurar uma identidade por si só, mas creio que meu incômodo fosse por eu me sentir todo mundo, menos eu. Mas desse incômodo, veio a dúvida: O que configura ser eu? Como se descobre isso?


Assumi gostar de algumas coisas que antes eu negava por haver algum tipo de preconceito entorno do tema. Um exemplo disso são os animes. Mas, atualmente, a cultura asiática tem estado muito em alta, principalmente o que é proveniente da Coreia, e isso não me torna mais os outros do que eu mesma? Mas, se isso me tornar mais eu, o "eu" não seria realmente uma junção do que os outros já são? E se esse realmente for o caso, por que antes me sentia incomodada e agora sinto que estou no caminho certo?


Creio que um o paradoxo do "Navio de Teseu" se amolde muito bem a essa discussão. Vejamos: Teseu parte em uma viagem em sua embarcação almejando sair do ponto A e chegar ao ponto B. Por se tratar de uma viagem muito longa, a medida que as partes do navio iam ficando avariadas, eram trocadas por partes mais novas. Ao final da viagem, todas as partes do navio haviam sido substituídas. Logo, o navio que chegou é o mesmo navio que um dia partiu? Ou, por ter sido inteiramente substituído, havia se tornado um navio novo?


Thomas Hobbes ainda se arriscou questionando se, caso as peças descartadas fossem juntadas para montar um navio, qual deles seria de fato o navio de Teseu?


Na minha opinião, não seria mais a mesma embarcação, mas sim uma nova. Porém, minha teoria só faz sentido se notada nas pessoas. Quando conhecemos alguém na infância e a reencontramos na fase adulta, pode até ser a mesma "casca", por assim dizer, mas com certeza não será mais a mesma pessoa. E com certeza ela não conseguiria voltar a ser quem era anos antes, mesmo que em seu interior tal persona ainda exista e tenha servido de base para desenvolver quem ela se tornou.


Heráclito disse que:


"Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários".


O rio ainda é o mesmo, a pessoa ainda é a mesma, mas nenhum dos dois está igual à primeira vez em que se encontraram. Tudo é regido pela mudança. Fato inevitável. Se uma pessoa continua a mesma ao longo de vários anos, provavelmente é porque não viveu nesse meio tempo. Viver exige mudar, se adaptar. Logo, a identidade não pode ser uma constante. A vida de uma pessoa é composta por várias identidades, ainda que todas estejam, de certa forma, armazenadas no interior.


Mas isso ainda não define muito bem o que é identidade. Creio que a definir como "o conjunto de experiências vividas por alguém" seja muito simplório, uma vez que ao se deparar com a pergunta "quem é você?", a resposta seria muito longa. Eu não sou a vez que meus pais me colocaram de castigo na infância, eu não sou o primeiro beijo que dei, não sou a minha primeira amizade que acabou, não sou o curso que escolhi na época do vestibular, não sou a primeira vez que caí de bicicleta, não sou meu livro favorito, com certeza não sou meu trabalho, mas é inegável que tudo isso me tornou quem sou e contribuiu para definir minha identidade atual.


Sermos seres mutáveis é, na verdade, um privilégio. Não precisamos nos conformar com quem somos, podemos, assim como o navio, trocar nossas peças. E isso não será negar a trajetória que tivemos, mas às vezes, se não mudamos as partes defasadas, naufragamos sem chegar ao nosso destino.


Quem eu sou, então? Sou o conjunto de tudo que já fui. Ainda é uma resposta simples, mas algumas coisas não precisam ser complexas. Se alguém quiser saber para além dessa frase, terá que de fato me conhecer e, então, ela terá certeza de que sou o conjunto de tudo que já fui. Magicamente, pela arte da intimidade, essa frase não parecerá mais tão simplória.


Obrigada por ler até aqui.

Me conte o que achou do post e sua experiência descobrindo quem é <3



 
 
 

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2 comentários


Mateuxiiim
Mateuxiiim
04 de out. de 2025

Complexo. Eu acho que não existe uma boa resposta para a pegunta "Quem é você?". Post bem escrito que me fez pensar, parabéns.

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Duna Francesa
Duna Francesa
05 de out. de 2025
Respondendo a

Que bom saber que o texto te fez refletir✨


Acho que a graça é justamente não ter uma resposta pronta. Acaba por ser uma constante descoberta sobre nossa identidade. O caminho que trilhamos em busca disso é o que torna tudo divertido.


Obrigada por compartilhar seu ponto de vista💖

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