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Memórias Artificiais

  • Foto do escritor: Duna Francesa
    Duna Francesa
  • 5 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Como já dito em outro post, estamos enfrentando uma mudança social com a evolução da tecnologia. Uma delas diz respeito ao uso de inteligências artificiais. Aqui não manifesto uma opinião positiva e nem negativa sobre tal ocorrência, até porque podemos extrair pontos bons e ruins sobre o assunto. Entretanto, é fato que toda mudança pode ser usada para o bem ou para o mal, e o que determina seu uso somos nós.


Aos poucos, notamos a utilização de tal tecnologia de coisas pequenas até coisas grandes. A partir disso, fenômenos surgem, alguns podendo ser notados de imediato e outros ao longo do tempo. O que eu gostaria de tratar nesse post, e indo direto para o assunto, é a utilização de IA's para criação de imagens fotográficas.


Nas últimas semanas, várias pessoas tem postado em suas redes sociais fotos artificiais e isso desencadeou a seguinte reflexão: quantas memórias afetivas registradas em fotografias serão reais em um futuro próximo?


Um dos momentos mais especiais em família é abrir a caixa de álbuns de foto e se deixar levar pela nostalgia de cada registro. É como se, magicamente, fossemos teletransportados para aquele momento do tempo que foi capturado.


  1. Quando se inicia um relacionamento e os pais, na tentativa de causar certo constrangimento, mostram fotos do(a) filho(a) bebê tomando banho de banheira;

  2. Quando a avó mostra um retrato de sua infância e você não consegue imaginar a vovó de cabelos brancos com seu longo cabelo castanho e sua pele como que de pêssego;

  3. Quando se vê uma foto dos pais jovens, no princípio do relacionamento, em um momento em que não conseguiam prever o desenrolar da própria história;

  4. Quando se encontra uma foto sua brincando com um algo que há muito tempo havia esquecido;

  5. Quando acha uma foto sua com um grupo que já não conversa mais.



Fotografias carregam em si o doce do que é nostálgico. Lembranças que permanecem registradas ainda que não sejam mais visitadas na memória. Mas tudo isso parece se tornar frágil quando vemos pessoas postando no Instagram fotos que registram algo vazio; um momento que nunca ocorreu.


Aqui não estou tratando de montagens que juntam pessoas que infelizmente não se encontram mais juntas, como um neto com seu avô que faleceu. O ponto são pessoas que estão vivendo no mesmo espaço-tempo e que poderiam viver aqueles momentos na realidade, mas que preferem o que foi gerado por um computador.


Desse modo, o que as crianças da próxima geração vão sentir ao visitar um álbum de família? Elas vão achar que aqueles momentos ocorreram? Elas vão duvidar da própria memória sem saber se aquilo aconteceu ou foi gerado? Quão vazia será essa nostalgia?


Me parece que as pessoas não dão mais valor para o que é real. Fotos são carregadas de photoshop, só se seleciona fotos onde tudo está meticulosamente perfeito. Não existem mais fotos espontâneas, leves, com um leve desfocado, borradas porque uma criança tirou enquanto corria com o celular. Agora, só se registra um momento se ele for ficar bonito no feed.


Essas memórias já pareciam um tanto quanto vazias, e, para piorar a situação, agora compartilham algum que nunca ocorreu. Com a ficção científica tão próxima da nossa atual realidade, parece que as pessoas perderam o gosto por viver. Tudo se torna artificial. Dos rostos até as memórias.


Viver precisa ser algo intencional e efetivo. Qual o sentido ou a graça de apenas fingir viver? O que teremos registrado para contar em um almoço de domingo? Me parece que a única coisa que vamos levar para a velhice são arrependimentos. E eu entendo que a realidade atual do país não permite sair todos os finais de semana, viajar para lugares caros ou enfim, mas as memórias que guardamos dos nossos pais e avós são de reuniões simples na casa de parentes, registros com os amigos na escola, momentos toscos da adolescência e festas de aniversário infantis. O cotidiano é tão repleto de beleza quanto os outros momentos que temos. A rotina representa a maior parte dos nossos anos, então não há porque vivê-la de forma pesada e inventar ocasiões para se fingir experienciar o extraordinário. Viver é extraordinário.


Esse texto é um convite para fazer e registrar o simples de cada dia, não deixar que uma IA crie algo da qual ninguém lembrará.


Registre e viva com intenção.


"O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna" - Clarice Lispector.

Obrigada por ler até aqui <3.

Me conte o que achou e dê sugestões de temas para o nosso blog!


Assinado: Duna Francesa

 
 
 

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2 comentários


Mateuxiiim
Mateuxiiim
11 de out. de 2025

Certeiro.

A mais ou menos três meses, eu comprei uma câmera, com a intenção de registrar momentos que genuínos. E também sem ficar naquela "a foto ficou ruim, tira outra", isso não é genuíno. Ótimo post.

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Duna Francesa
Duna Francesa
11 de out. de 2025
Respondendo a

Eu estou economizando para comprar uma e começar a registrar os momentos para fazer um álbum de fotos. Sempre amei o dos meus pais de quando eles se casaram. Alguns momentos são breves, mas ficam gravados em nós para sempre.


Obrigada pelo comentário💖

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