A Metamorfose
- Duna Francesa

- 14 de fev.
- 6 min de leitura
Ontem (13/02/2026) finalizei a leitura de "A Metamorfose" de Franz Kafka, e gostaria de escrever um pouco sobre as minhas considerações (com spoilers).
Quando eu estava na escola, creio que no fim do ensino fundamental II, minha professora de literatura nos fez comprar o livro para uma leitura e posterior realização de um trabalho. Não me lembro como foi o desenvolvimento da atividade pedagógica, mas lembro que não li a história toda. Posso dizer que mal li as primeiras páginas e o abandonei na estante. Não interprete como se eu não gostasse de ler, porque a realidade se mostra bem contrária. Eu gosto muito de literatura, mas na adolescência me faltava muita paciência para livros clássicos. O que realmente me chamava a atenção eram livros de fantasia, carregados de romance.
Não posso dizer que isso tenha sido algo ruim, mas sim uma fase da minha trajetória enquanto leitora. Até agradeço pela minha falta de paciência, porque com certeza minha interpretação teria sido extremamento limitada e possivelmente eu nunca mais leria a obra novamente.
Quando saí do ensino médio, doei parte considerável dos livros que eu possuia por recomendação da escola. Dentre eles, minha edição de "A Metamorfose". E me lembro com clareza de pensar "isso não vai me fazer falta". No final do ano passado, entretanto, percebi que os livros da minha adolescência pareciam carecer de algo que minha vida hoje exige, talvez profundidade ou possibilidades de interpretação. Gostaria de coisas que não fossem só para matar tempo, mas sim para forçar minha mente de alguma forma. E nessa busca, acabei me voltando para o gênero literário que mais me arrepiava uns anos antes: os clássicos.
Pois bem, acabei por adquirir novamente uma edição de "A Metamorfose" numa tentativa de dar mais uma chance ao gênero. Agora, após essa breve introdução, passo às minhas considerações.
"A METAMORFOSE"
Breve introdução
A história de Gregor Samsa me incomodou muito, principalmente por sua excessiva preocupação com as coisas e pessoas ao seu redor. Após despertar em um dia comum, Gregor se depara com um cenário assustador: deitou-se como homem e acordou como um inseto. Todavia, apesar de breves menções a tal questões, sua maior preocupação é o trabalho, para o qual está atrasado.
Essa facilmente seria a maior adversidade a atingir alguém e uma pessoa comum ficaria desesperada, pensaria em meios para voltar ao normal, em como aquilo poderia o ter acometido. Mas Gregor Samsa se preocupa com seu atraso, com uma demanda importante que perdera, em quanto tempo poderia chegar ao trabalho se saísse da cama e começasse a se arrumar.
Como se essa preocupação não fosse o bastante, o Sr. Samsa também se atordoa ao pensar em sua família, que dependia do labor deste para sobreviver.
E essas questões o atordoam ao longo de todo o livro. Em uma cena mais avançada da leitura, Gregor pensa em como desejava enviar sua irmã para estudar música e em como pretendia contá-la sobre esta decisão no próximo Natal.
Ou seja, para o protagonista, sua situação não incomodava pelos diversos empecilhos que isso lhe acarretou, ou por não poder mais sair de casa, se alimentar normalmente ou nem se quer por estar preso em seu quarto. Seu temor era externo. Nem se quer o incomodava diretamente que sua família o veria assim, mas sim em como os deixaria desamparados quando descobrissem, pois a partir deste momento, se tornaria real a transformação.
Desenvolvimento e humanidade
Ao longo do livro criei uma expectativa sobre como Kafka resolveria a situação angustiante do protagonista. Até porque nada era feito. O leitor não recebe uma explicação sobre como a situação se deu e não vemos empenho de qualquer personagem em tentar obter uma solução. Este ponto é interessante, pois a família não era capaz de compreender o que Samsa falava, apesar de desde o início terem certeza de que o inseto era o até então membro da família. Como este não era capaz de se expressar, é de se imaginar que seus familiares tentariam algum meio para entender e resolver a questão, mas não. Não chamam um médico, padre, pastor, feiticeiro ou curandeiro para verificar ocorrido. Logo após o choque inicial, todos se acomodam com o novo paradigma familiar.
O que realmente é feito pelos mais chegados é simplesmente tentar a todo custo esconder a nova verdade: o filho e irmão provedor se metamorfoseou em um inseto, ou melhor, perdeu seu quisto emprego e meio de sobrevivência de sua família.
Ao longo da narrativa o que se percebe é que Samsa não perdeu sua humanidade, mesmo após precisar encarar que não se alimentava mais como humano, falava como tal ou se quer era querido como antes. Samsa, mesmo após se ver como inseto, é empático. Em dado momento, inclusive, se ressente ao ter seus móveis retirados de seu quarto para que pudesse aproveitá-lo como um inseto o faria. O protagonista sentia tanto as coisas que ocorriam ao seu redor, que até mesmo se escondia para poupar sua irmã de vê-lo quando entrasse em seu quarto para limpar e levar comida.
Entretanto, pelo contrário, vemos sua família cada vez mais se esquecendo quem era o inseto que vivia no quarto. A cada página seu ciclo de cuidadores o trata de forma pior e pior, aumentando o nível de violência e descuido, como se o inseto tivesse devorado Gregor, não sendo este nada mais nada menos que uma nova versão de quem antes conheciam e amavam.
O que me pareceu era que, como ele não era mais útil, poderia ser descartado ou negligenciado. E isso diz mais sobre seus pais, irmã e empregados, do que sobre o inseto que ocupava o cômodo.
Mudanças
Uma coisa que pensei muito era "o que Kafka queria dizer ao escrever a obra?". O único paralelo que eu conseguia fazer com a realidade era as enfermidades. Em um dia seu familiar é independente, alegre, cheio de vida. No outro sofre um acidente e fica em estado vegetativo, devendo ser cuidado por seus familiares. Ou em um dia se é jovem, cheio de energia e no outro a velhice bate a porta, as doenças aparecem e a dependência se torna a nova realidade. Em ambos os cenários (extremamente comuns), é comum se deparar com familiares que vão se estressando ao longo dos dias, das semanas e dos meses por agora ter que cuidar de outra pessoa. É muito comum que idosos com alzheimer cuidados por seus filhos deixem, por exemplo, de sair de casa, assim como Gregor Samsa.
A pessoa deixa de ser quem era e passa a ser uma doença, uma coisa. Não importa mais como se sente, se entende o que acontece ao redor, se vai se sentir amada ou querida. Ela precisa apenas se contentar em sobreviver as custas dos cuidados básicos que recebe, como se todo o resto fosse irrelevante.
Como Samsa não tinha mais meios de proporcionar a família recursos financeiros que garantissem a manutenção da boa vida, era descartável. Isso sem dizer que, antes de sua transformação, era o único provedor da casa como se fosse o único capaz de trabalhar. A mãe era fraca e possuía a saúde debilitada, o pai tinha condições físicas que o impediam de trabalhar e a irmã era muito nova e mimada para ajudar com o sustento da casa. Mas, misteriosamente, todos adquirem capacidade para trabalhar após a metamorfose, pois essa era a única forma de manter as regalias de antes.
O Final
E, agora, chegamos ao desenrolar que eu tanto esperei ao longo do livro: Samsa não retorna de sua transformação, pelo contrário, leva para seu túmulo sua nova forma.
Achei que este final me incomodaria, mas creio que nenhum final seria mais coerente que este. Após sua irmã dizer claramente para os pais, na frente de Gregor, que deveriam se livrar dele, este se vira e retorna aos seus aposentos. Já de volta ao seu quarto, repleto pelo escuro, Samsa sente seu corpo cada vez mais debilitado, pensa em sua família com consideração e amor, vivencia o raiar do alvorecer e suspira pela última vez.
Este final trágico não é apenas o fim da vida de Gregor, mas também o ponto final de seu sofrimento e cansaço. Pode não ser o que o protagonista merecia, principalmente após toda sua dedicação à família e ao trabalho, mas com certeza é o que ele precisava após tudo o que vivenciara nas últimas semanas.
E, mais triste que sua morte, é a reação de sua família a tudo isso. Não há sofrimento, tristeza, luto. O que realmente se verifica ao ler as reações nas últimas páginas é alívio. Um fardo foi embora. Gregor não ganha nem se quer um funeral digno, pois é descartado pela faxineira.
Após tudo isso, seus pais e sua irmã se arrumam e saem de casa para passear, imaginando o novo lar para onde pretendem se mudar; uma nova vida sem Gregor Samsa.
Conclusão
Essa leitura é bem curta e sem muitos acontecimentos emocionantes, pelo menos na minha perspectiva. É uma história simples, porém triste. O maior da história não é ela em si, mas sim o que se pode extrair a partir de sua leitura, por esse motivo, recomendo que tirem algumas horas para ela.
Kafka morreu de tuberculose e, pelo que li, ficou aprisionado em seu quarto tal como Gregor, além de não conseguir comer, assim como seu personagem e sendo cuidado por sua irmã, da mesma forma que o inseto.
A metamorfose é muito mais sobre nós do que sobre Gregor Samsa. E, com certeza, e infelizmente, temos em nós muito de seus familiares e entre nós muitas histórias similares a essa. A preocupação extrema com o trabalho, o descaso da família e o alívio com a perda.
“Não consigo fazer você entender. Não consigo fazer ninguém entender o que está acontecendo dentro de mim.
Não consigo nem explicar para mim mesmo.”
A Metamorfose




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