Utilidade da inutilidade
- Duna Francesa

- 28 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 29 de jan.
Qual foi a última vez que você se permitiu ser inútil?
Antes de explicar o porquê da minha pergunta, gostaria de fazer uma pequena introdução.
Já te ocorreu de chegar em casa cansado do trabalho/escola, deitar na cama, pegar o celular e ver o perfil de algum influenciador que afirma que seu dia inicia às 04 da manhã e finaliza às 23, sendo que neste meio tempo ele pratica algum esporte, vai à academia, faz a refeição da semana toda, limpa a casa, trabalha, sai com os amigos, estuda algum conteúdo novo, participa de aulas experimentais e organiza cada minuto do dia seguinte?
Se não, o que eu duvido, saiba que isso ocorre constantemente comigo. Vejo diversos perfis com a mesma premissa: a necessidade constante de se manter ocupado ao ponto de não existir tempo para a ociosidade.
Esse fenômeno me fez, por muito tempo (e às vezes ainda hoje), me sentir culpada por estar deitada na cama ao invés de estar ocupada com qualquer outra demanda. Costumo, inclusive, me pegar em um ciclo vicioso onde eu fico sem fazer nada me sentindo culpada pela minha inutilidade e, ao começar a fazer qualquer tarefa, me sentir excessivamente cansada. E o que passa na minha cabeça costuma ser: "se eu não fiz nada, por que me sinto tão cansada?". Mas, na maioria das vezes, o nada que fiz só é nada comparado ao tudo que outro alguém fez.
Sinceramente, é muito difícil alguém depois dos 15 anos estar realmente à toa ao ponto de não ter com o que se sentir cansado. Parece que viver tem cobrado um preço muito maior do que uns anos atrás. Esses dias dois colegas de serviço estavam conversando sobre como deveria ser bom viver em sociedades onde o seu papel era a caça e a reprodução, pois as tarefas seriam cumpridas mais rapidamente e sobraria parte significativa do dia para se viver. Quando foi a última vez que chegamos ao final de uma semana tendo vivido nem que fossem poucos minutos neste intervalo de tempo? Não digo de ir trabalhar e limpar a casa. Digo de viver, sentir que se existe, que sua existência é ativa.
Sinto que todos os dias passam porque tem que passar, não porque eu os vivi. Eu acordo de manhã e antes de ver se o céu está azul e se o sol resolveu brilhar já estou atrasada. Chego no trabalho e não vejo o mundo lá fora até o horário do almoço. Fico tão desesperada no meu intervalo para só desligar o cérebro que mal sinto o gosto da comida. Volto para o trabalho e nem percebo o correr da hora pela quantidade excessiva de trabalho. Termino meu expediente e vou para a academia com pressa de finalizar logo meu treino porque só quero a minha casa. Chego em casa e engulo o café porque preciso estudar pelo menos o suficiente para não atrasar mais o cursinho que estou fazendo. Magicamente são meia-noite e já já tenho que levantar. Durmo e acordo com a estranha sensação de que não dormi o suficiente. E mal saio da cama e já estou atrasada novamente.
Só de escrever já fiquei mentalmente exaurida.
Depois desse breve resumo de uma terça-feira na minha vida, indago sobre o que mais eu poderia fazer com as minhas 24 horas que já são ridiculamente insuficientes? Me comparar com um terceiro que está completamente alheio a nossa realidade e procurar algo para fazer de meia-noite às sete?
Apesar do exagero, volto a minha pergunta inicial, qual foi a última vez que você se permitiu ser inútil? Qual foi a última vez que você simplesmente acordou e ficou na cama sem se apressar, olhando as horas ansioso para que seu descanso chegue ao fim, ou se cobrando para levantar e ser útil? Quando foi a última vez que você conseguiu caminhar sem ter que estar ouvindo um podcast no fone? Ou quando dirigiu pela última vez sem se ocupar com o que vai fazer quando chegar em seu destino? Dormiu sem sonhar com o trabalho? Viu um filme sem pegar no celular? -- (Digo isso coberta com a minha hipocrisia, pois estou escrevendo enquanto ouço música).
Sobre meus colegas que falaram sobre a vida de quem pescava e se reproduzia: se fossemos soltos hoje nessa realidade, daríamos conta de manter o tédio? De aceitar o simples fato de não ter o que fazer depois de exauridas as obrigações? Nem as crianças conseguem mais presenciar o tédio e só inventar uma nova brincadeira, então o que esperar de nós jovens adultos?
A ideia deste post veio do meu querido companheiro que me encaminhou um texto rascunhado em um momento de seu dia. Deixo aqui a transcrição antes de finalizar:
"Não é de hoje que sabemos os malefícios que o excesso de redes sociais e conectividade no mundo digital gera, não é preciso abordar este tema, pois afinal todos já foram alertados que o excesso do digital causa problemas em áreas da vida. Entretanto, mesmo ciente dos prejuízos, mantemos-nos conectados 24h, observamos em terceira pessoa, a vida dos influenciadores digitais que acordam às 04 da manhã correm 3.938 km, nadam 873 km em mar aberto, pedala, 10.835 km por montanhas nos alpes suiços e ainda tem tempo de ler 34 livros fazer almoço e abraçar 2 árvores.
Observamos isto e nos questionamos, por que eu não faço isso também? Está todo mundo em movimento, e eu inerte, o que estou fazendo de errado?
Desse prólogo, temos inúmeras reflexões para fazer, contudo uma das pertinentes é a respeito da impossibilidade no mundo atual, de se permitir não fazer nada, ocioso, deitado olhando para o teto, sobre a impossibilidade de estar entediado. Na geração da produtividade, ser improdutivo, ocioso é um desafio psicológico, moral e físico, enquanto estamos nos comparando com todos ao redor, não permitimos que nossa mente descanse em meio ao caos da vida comum. Sempre ocupados, sempre com fones de ouvido, sempre com atividades para fazer, não nos permitimos participar de hobbies como hobbies, são sempre atividades da qual temos que nos dedicar e ser produtivo, não se permite ser ruim."
Não nos permitimos nem se quer errar em coisas nas quais não temos qualquer obrigação de sermos bons. Por isso, quando assumimos o compromisso de realizar alguma tarefa, já começamos cansados. Você pode até ter ficado deitado no sofá mexendo no instagram, mas seu cérebro não parou 1 segundo se quer. Durante toda sua leitura, posso afirmar que sua mente foi e voltou, concordou ou discordou, pensou em alguma tarefa que ficou inacabada e possivelmente já planejou o que fazer quando finalizar. Não conseguimos nem ler algo verdadeiramente sem deixar que os pensamentos voem soltos. Não conseguimos focar no que estamos fazendo. É a mesma sensação de quando conversamos com alguém e no meio da fala da outra pessoa lembramos de algo pendente e divagamos nessa linha até perceber que não prestamos atenção na última coisa que foi dita. Estamos mentalmente cansados, exauridos, exaustos.
Tente pelo menos não se cobrar de ser produtivo a cada segundo. Precisamos descansar. Você precisa descansar. Deitar e olhar para o teto por 10 minutos. Ver como está o tempo lá fora. Olhar para o céu e procurar alguma estrela. Se permita existir sem maiores intenções. E quem sabe, pouco a pouco, você consiga ter consciência o suficiente da própria existência ao ponto de viver sem apenas existir.
Se permita ser inútil, ocioso. Até nisso há razão!
Muito obrigada por ler até aqui <3
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